O moralismo e o terror nosso de cada dia

O moralismo e o terror nosso de cada dia

A moral é mãe do terror – e sobre isso tenho pouca duvida. Foi nosso medo de contrariar a vontade divina, a ordem casta que se sobrepõe a natureza, que fez nascer o demônio e seus asseclas na imaginação dos primeiros humanos; a noite, elemento fundamental do horror, também era terreno fértil para o “pecado”, seja ele o crime, a matança ou o sexo. Temíamos nossos predadores, macro e microscópicos, e neles buscávamos explicações para nossa culpa – o mais humano dos sentimentos. Com as religiões organizadas, em especial com o cristianismo – catalisador moral de grande parte da historia do ocidente, alargamos nosso fosso pecaminoso e adentramos definitivamente na era do horror, que só iria piorar com o advento das reformas protestantes, que recrudesceram a moral como foco da vida cristã. Por conta da moral cristã, caçamos a sexualidade feminina na pele das bruxas, execramos a ciência e seu pacto Mefistofélico, condenamos a puberdade com os incubus, sucubus e vampiros, recheamos o mundo de criaturas medonhas prontas para por a prova nossa vontade e retidão diante dos olhos de Deus. O sec. XX veio e, apesar de termos aos pouco nos libertado da moral e bons costumes do passado, continuamos baseando nossos medos e horrores a caça impiedosa do mal aos humanos que descumpriram as regras divinas de conduta. Nossa literatura e cinema ainda são povoados de assombrações vingativas e monstros vingadores. Enquanto outros gêneros carregam a chama do progresso e são bastiões de liberdade, o terror continua carregado de moralismo – mesmo que na maioria das vezes esse mesmo moralismo venha banhado de falsa permissividade. Alguns autores e autoras, diretoras e diretores, parece interessado em demonstram que o terror pode vencer essa barreira, e que o medo pode se fixar noutros patamares, e sobre eles e seu “pós-terror” falaremos em momento oportuno, mas a grande maioria dos produtos culturais vem carregada da mesma carga moral dos contos medievais sobre o diabo… e me parece que continuaremos assim por um bom tempo, afinal, os deuses ainda parecem estar lá, prontos para nos castigar!

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