O medo incompreendido

O medo incompreendido

Nem a critica, nem as pessoas – a arte do horror ainda é posta para escanteio

Meu amor pelo macabro vem de cedo. Vem da época em que meu pai assistia filme sentado no chão da sala, com um litro de refrigerante e salgadinho ruim como seus companheiros. Lembro bem do misto de prazer e repulsa ao ver meia dúzia de cenas macabras assim, de relance, enquanto meu pai conferia o filme que acabara de alugar – “Necronomicon – O Livro Proibido dos Mortos”. Eu tinha sete anos. Minha paixão continuou e virou obsessão, e quando completei idade suficiente para ganhar algum dinheiro por minha conta, passei a gastar o que podia e não podia com essa mania: foram ao menos 200 VHS e 200 DVD durante meu tempo de colecionador. E não só isso: livros, revistas especializadas, posters, trilhas sonoras em vinil e cds, camisetas… um verdadeiro apaixonado, fanático. Como fã, uma coisa que sempre me incomodou foi o descaso que a critica relegava ao gênero terror. Seja na academia, sejam nas premiações de cinema, literatura, tanto faz, o fato é que o terror (quase) sempre foi ignorado pelos especialistas. Na literatura, são poucas as produções em português em torno da obra de Stephen King ou de H.p. Lovecraft; No cinema, gênios – do lixo – como George Romero ou Tobe Hooper são colocados como nomes de segunda categoria, diminuindo assim a leitura do possível impacto de suas obras na sociedade. Entretanto, isso não esta só presente na academia ou na critica especializada – esta também nas pessoas.

Para ilustrar essa “tragédia” vou contar aqui um causo – sei que evidencias anedóticas não são exatamente um ótimo indicio para uma conclusão, mas eu não estou fazendo nada mais do que um relato apaixonado sobre o assunto… Dos muitos amigos que tenho, vários deles são de alguma forma ligados a sétima arte. Numa certa vez, visitando a casa de uma conhecida, fui apresentado a uma garota muito simpática que, segundo a pessoa que nos introduziu,era aficionada por cinema. O papo foi muito agradável e era admirável o conhecimento que a moça tinha sobre o mundo cinematográfico: sabia nomes de diretores de cor; sabia data de filmes; conhecia películas estrangeiras que nem meia dúzia de pessoas tinha visto; falava de cinema independente com entusiasmo! E ai veio a bucha… Cinema de terror é basicamente cinema marginal, independente – e isso eu conheço e adoro! Logo que chegamos nesse assunto, me empolguei, na expectativa de ter encontrado alguém que, como eu, amasse o cinema B, e mencionei meus diretores favoritos e seus filmes que mais me encantavam, e de um deles, em especial: George Romero. Qual não foi meu espanto quando a moça torceu a cara e disse, sem pestanejar: Zumbi? George Romero? Credo, isso não é cinema! “Porque não?”, perguntei. “Porque não tem apuro estético, porque é bobagem popular, tosco demais”… depois dessa resposta, o papo azedou e fomos cada um para o seu canto – ela, provavelmente, bastante frustrada por ter que explicar o óbvio. com o tempo, me acostumei em ouvir esse tipo de resposta de varias pessoas. Hora os motivos eram teológicos – terror é coisa do diabo; Hora os motivos eram puramente estéticos ou mercadológicos – o terror não é “fino” o suficiente. E assim é: de fato o cinema de terror tem uma cara popularesca, como as comédias de situação e os musicais; Fato é que as produções de terror nem sempre privam por apuro estético – e as vezes capricham no mal gosto, mas dai a dizer que são menores pelo simples fato de serem “de terror” me parece um contrassenso, afinal, não é a arte, qualquer seja a forma, uma expressão do humano e, por isso mesmo, rica em seus significados e importância? Sei que poderíamos ficar por horas aqui, debatendo sobre a indústria cultural e como, de certa forma, ela tem o poder de esvaziar qualquer significado de uma obra – a escola de Frankfurt que me perdoe o exagero, mas quero deixar registrado que o terror é um ótimo termômetro para o presente, e deveria ter mais respeito por parte de todos, ainda mais da academia e da critica especializada.

Ps: Sei que aqui no site e nas redes sociais eu sempre me refiro aos filmes que gosto como ruins – e eu realmente acho que a maioria deles é. O que estou dizendo com esse texto não é sobre qualidade – e sim sobre relevância! Ruim ou Bom, isso é bastante subjetivo e tem haver com gosto, aquele que não se discute. Agora, relevância para o estudo, para a critica, para a leitura de um tempo… ai já são outros quinhentos!

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