Pós-terror é preconceito

Pós-terror é preconceito

Ou como a critica especializada precisa criar um novo gênero para aceitar que o terror é profundo.

Não é de hoje que o gênero terror e visto com maus olhos pela critica especializada – o próprio teatro Grand Guignol foi muito atacado, mesmo sendo um dos maiores patrimônios artísticos de Paris. Grandes filmes como “O iluminado” ou “O Exorcista” foram deixados de lado pela academia norte americana de cinema e pelos principais festivais do mundo. Nos jornais e nos sites especializados é notável como os críticos sempre veem com maus olhos a maioria dos lançamentos do gênero, considerandos títulos menores, com pouca representatividade do cinema como um todo e pouca relevância para a nossa cultura de maneira geral… Mas é claro que existem exceções e é sobre elas que gostaria de falar aqui.

“O próprio teatro Grand Guignol  foi muito atacado, mesmo sendo  um dos maiores patrimônios artísticos de Paris”

O surgimento da patacoada…

Algumas obras são incontestáveis – são tão cheias de qualidades técnicas e artísticas, são tão profundas e cheias de referencias, que fica impossível dar a elas criticas ruins, independente do gênero. A ultima safra de filmes de terror trouxe uma boa quantidade de filmes assim – Hereditário, Corra!, A bruxa, o estranhíssimo Mandy, entre outros …

E a critica ficou sem palavras: como aceitar que esses filmes, tão incríveis, sejam parte daquele gênero tosco e de mal gosto? Como aceitar que o grotesco ganhe espaço de discussão no mundo da “arte”, tão apolíneo e belo? O critico do The Guardian, Steve Rose, teve uma ideia, criar um novo gênero! E ai vemos surgir o pós-terror. E eu tenho um birra enorme com ele!

A definição exata do que é o pós-terror é muito difícil. Steve Rose usou o termo a primeira vez para se referir ao excelente Ao cair da noite, tentando dizer que esse filme não era um simples terror, cheio de grosseria e violência, e sim um filme sério, repleto de conexões e referencias, profundamente pertinente artisticamente. Essa tentativa de separar o terror comum de um terror mais serio é a principal função do pós-terror … e isso é ruim para o cinema. Muito.

O critico do The Guardian, Steve Rose, teve uma ideia, criar um novo gênero! E ai vemos surgir o pós-terror.

Gosto não é critica

O cinema de terror é Parte do jogo cultural. Por mais tosco, violento e desmiolado, qualquer filme diz respeito ao seu tempo e suas questões, e pode ser um ótimo eixo para entender o mundo que o pariu. Essa classificação entre filmes sérios, que merecem nosso respeito, e filmes de “brincadeira”, tira a relevância desses últimos e nos faz ignorar sua profunda conexão com o arcabouço cultural que o cerca.

Para além do gosto, que pode e deve ser respeitado, o trabalho da critica é aprofundar a experiência do espectador diante da obra e não dizer se a obra é boa ou ruim. Podem dizer o que quiserem de “A volta dos mortos vivos”, mas sua relevância é indiscutível! E seu gosto não muda nada em relação a isso …

Fica a esperança de que o terror ganhe a atenção que merece, tanto da critica, quando da academia, mesmo que seja por conta desse sub gênero que não nos ajuda em nada – além de nos chamar atenção para o óbvio: Existe muito preconceito com relação ao terror…

Ps: Ainda a muito o que falar sobre esse preconceito, já que suas origens são muito profundas e tem haver com outros preconceitos muito mais sérios. Voltaremos a falar disso em breve.


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